Como as Fibras Recicladas Apoiam a Moda Circular

published on 25 June 2026
Operário a preparar o corte de tecido às riscas numa mesa de enfesto de fábrica de confecção

As fibras recicladas com produção industrial estável no vestuário são, sobretudo, cinco: o poliéster reciclado (rPET), a poliamida reciclada (com o ECONYL da Aquafil como marca mais conhecida), o algodão reciclado, a lã reciclada e as fibras celulósicas feitas em parte com resíduos de algodão. Este guia explica de onde vem cada uma, para que serve, como se comprova o conteúdo reciclado e o que pode, ou não, dizer ao cliente.

Os números ambientais que aparecem nesta área vêm quase sempre dos próprios fabricantes. Citamo-los como tal, com a fonte, para que saiba exactamente o que está a repetir se os usar na comunicação da marca.

Para enquadrar: a texteis.org é o registo das empresas têxteis em Portugal, com 80+ fábricas documentadas. As normas da Textile Exchange e a legislação europeia citadas foram verificadas em outubro de 2026; os dados de fabricantes (Unifi, Aquafil, Lenzing) são declarações dos próprios.

Pontos-chave

  • Cinco famílias: rPET, poliamida reciclada (ECONYL), algodão reciclado (mecânico e químico), lã reciclada e celulósicas com resíduo de algodão (Circulose, REFIBRA).
  • Certificação: GRS a partir de 20% de reciclado (etiqueta no produto só a partir de 50%); RCS a partir de 5%. As duas são da Textile Exchange.
  • Prova: certificado de âmbito de cada empresa da cadeia e certificado de transacção por remessa, confirmados nas bases públicas da Textile Exchange.
  • Números ambientais: as reduções de emissões publicadas vêm dos fabricantes; comunique-as como dados do fabricante.
  • Limites: o rPET continua a libertar microfibras, e o reciclado mecânico perde qualidade a cada ciclo.
  • Passaporte Digital do Produto: os dados exigidos ao vestuário ainda vão ser fixados num acto delegado do ESPR.

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Que Fibras Recicladas Se Usam na Moda?

Poliéster reciclado (rPET)

O poliéster reciclado é a fibra reciclada mais usada no vestuário. A maior parte vem de garrafas de bebida em PET: são recolhidas, lavadas, trituradas em flocos, fundidas e extrudidas em filamento ou em fibra cortada, que depois entra na fiação, na tecelagem ou na malha como o poliéster virgem. A marca mais conhecida é o Repreve, da norte-americana Unifi, lançado em 2007. Segundo a análise de ciclo de vida encomendada pela Unifi (2023), o Repreve reduz as emissões de gases com efeito de estufa até 42% face ao fio contínuo virgem e cerca de 60% face à fibra cortada virgem (Home Textiles Today). São dados do fabricante.

Tem dois limites a conhecer. Continua a libertar microfibras na lavagem, como o poliéster virgem. E a reciclagem mecânica encurta as cadeias do polímero, o que limita o número de vezes que o material pode ser reprocessado. Explicamos os dois no guia o que é o GRS.

Poliamida reciclada (ECONYL)

O ECONYL é a poliamida 6 regenerada da Aquafil, empresa italiana com sede em Arco (Trentino), lançada em 2011. Usa resíduos como redes de pesca, restos de alcatifas e desperdício industrial. O processo é químico: despolimeriza a poliamida até ao monómero (caprolactama) e volta a polimerizá-lo, o que dá um material equivalente ao virgem. A Aquafil afirma que o ECONYL reduz até 90% o potencial de aquecimento global face à poliamida de origem fóssil; é um dado do próprio fabricante.

O caso mais conhecido é a Prada, que lançou a linha Re-Nylon em 2019, com ECONYL, e anunciou o objectivo de substituir todo o nylon virgem por nylon regenerado até ao fim de 2021 (Dezeen). Para as propriedades da fibra de base, veja o nosso guia da poliamida (nylon).

Algodão reciclado: mecânico e químico

O algodão reciclado segue duas rotas. A mecânica, madura há décadas, desfibra restos de corte, sobras de tecelagem ou peças usadas e volta a fiar a fibra. Como o processo encurta a fibra, o algodão reciclado mecânico é normalmente misturado com algodão virgem ou com poliéster para dar um fio resistente, o que limita a percentagem de reciclado da peça. Usa-se muito em ganga e em malhas básicas.

A química dissolve o algodão em fim de vida numa polpa que serve de matéria-prima a fibras celulósicas, do tipo viscose ou lyocell. A sueca Renewcell foi a referência: a sua primeira fábrica industrial, em Ortviken (Sundsvall), começou a entregar polpa Circulose no fim de 2022, com capacidade prevista de 60.000 toneladas por ano numa primeira fase (Renewcell, relatório anual 2022). A empresa pediu falência em fevereiro de 2024 e, em junho de 2024, o fundo sueco Altor comprou os activos, que passaram a operar com o nome Circulose (EUWID). Antes de planear uma colecção com esta fibra, confirme a disponibilidade com o fornecedor do fio ou do tecido.

Lã reciclada

A lã reciclada é das fibras recicladas mais antigas: a região de Prato, na Toscânia, recicla lã mecanicamente há mais de um século e continua a ser o principal centro desta actividade. Como no algodão, a fibra encurta no processo, e é habitual misturá-la com lã virgem ou com fibras sintéticas. Usa-se sobretudo em malhas, casacos e mantas.

Certifica-se com o GRS ou o RCS, como as outras fibras recicladas; não existe uma norma própria da Textile Exchange para lã reciclada. O Responsible Wool Standard (RWS) aplica-se à lã virgem da mistura, se a marca quiser comprovar o bem-estar animal dessa parte.

Celulósicas feitas com resíduo de algodão

Além da Circulose, a Lenzing produz fibra TENCEL Lyocell com a tecnologia REFIBRA, que substitui até 30% da polpa de madeira por polpa feita de restos de algodão, segundo o anúncio da Lenzing de 2019 (Textile World). Usa-se em camisas, vestidos e malhas, nos mesmos artigos do lyocell convencional.


Como Se Comparam as Fibras Recicladas?

Nenhuma fibra reciclada serve todos os casos. A escolha depende da categoria, do toque pretendido e do argumento que a marca quer sustentar. A tabela resume o essencial, sem preços, porque estes dependem do volume, do fornecedor e do momento da compra.

FibraBaseOrigem do recicladoUsos típicosComo se comprova
rPETPoliésterGarrafas PET; algum resíduo têxtilDesporto, athleisure, malhas técnicas, forrosGRS ou RCS
Poliamida reciclada (ECONYL)Poliamida 6Redes de pesca, alcatifas, resíduo industrialDesporto, banho, lingerieGRS ou RCS
Algodão reciclado mecânicoAlgodãoRestos de corte, sobras, peças usadasGanga e malhas básicas, em misturaGRS ou RCS
Celulósicas com resíduo (Circulose, REFIBRA)CeluloseAlgodão em fim de vida ou restos de corteCamisas, vestidos, malhasConfirmar com o fornecedor
Lã recicladaLãPeças e sobras de lãMalhas, casacos, mantasGRS ou RCS (RWS para a lã virgem)

Com base nas informações dos fabricantes e nas normas da Textile Exchange (GRS 5.0, RCS 3.0).

O rPET é a entrada mais simples no reciclado, porque funciona nos mesmos equipamentos e nos mesmos artigos do poliéster virgem; a vantagem ambiental é substituir matéria-prima virgem, não eliminar as microfibras. A poliamida regenerada química dá um material equivalente ao virgem, o que interessa em desporto, banho e lingerie. O algodão reciclado mecânico obriga a mistura, e a alegação tem de mostrar a percentagem real. As celulósicas de resíduo resolvem o problema do comprimento de fibra, mas a oferta é mais limitada.


Que Certificações Comprovam o Conteúdo Reciclado?

As duas normas mais usadas são da Textile Exchange. O Global Recycled Standard (GRS) certifica produtos com pelo menos 20% de conteúdo reciclado, em massa, e só permite a etiqueta GRS no produto a partir de 50%. Além do conteúdo e da cadeia de custódia, exige critérios sociais, ambientais e químicos às unidades que processam o material (GRS 5.0). Explicamos os limiares de 20% e 50%, os certificados e as regras da etiqueta no guia o que é o GRS (Global Recycled Standard).

O Recycled Claim Standard (RCS) aplica-se a partir de 5% de conteúdo reciclado e verifica o conteúdo e a cadeia de custódia, sem os requisitos sociais, ambientais e químicos do GRS (RCS 3.0). Como começa nos 5%, uma peça com RCS pode ser maioritariamente de material virgem; as alegações sobre o produto têm de indicar a percentagem certificada.

As duas normas funcionam com dois documentos:

  • Certificado de âmbito (scope certificate): emitido a cada empresa certificada, indica os processos e os produtos que pode produzir ou vender como GRS ou RCS. Prova que a empresa pode fornecer material certificado, não que uma encomenda concreta o é.
  • Certificado de transacção (transaction certificate): emitido pelo organismo de certificação aprovado para cada remessa de produto certificado. É o documento que sustenta uma alegação sobre um lote concreto.

Os dois verificam-se online: o certificado de âmbito na base pública Find a Certified Company da Textile Exchange e o certificado de transacção na ferramenta Authenticate a Transaction. Para a lã reciclada aplicam-se as mesmas normas; o RWS cobre apenas a lã virgem.

Sala de corte têxtil com rolos de tecido empilhados e máquina de enfesto sobre a mesa de corte
Antes de cortar, confirme que o tecido recebido corresponde ao certificado de transacção da remessa e à composição da ficha técnica.

Quanto Custa Produzir com Fibras Recicladas?

O tecido reciclado custa, em regra, mais do que o equivalente virgem, e a diferença varia muito com a fibra, o volume, a cor, o acabamento e o fornecedor. Não há uma tabela pública fiável de preços por metro em Portugal, por isso não publicamos números que não possa confirmar.

O que funciona na prática é pedir cotação do mesmo artigo com e sem reciclado, ao mesmo fornecedor e com as mesmas especificações. Some depois o custo de pedir e arquivar os certificados de transacção de cada remessa. E decida no briefing de design, antes de fixar o preço de venda: trocar para reciclado depois de fechar o preço obriga a reabrir a margem ou as especificações da colecção.

Precisa de uma estimativa? Envie o briefing com o produto, o volume e o material reciclado pretendido, e a nossa equipa responde em 24 horas. Sem obrigação.


Como Confirmar se uma Fábrica Trabalha Reciclado Certificado?

Num programa com fibra reciclada, a confecção é só o último elo. Para uma peça GRS, todas as empresas que transformam ou vendem o material, do reciclador ao último vendedor entre empresas, têm de estar certificadas; se um elo não estiver, o produto deixa de poder ser vendido como GRS, mesmo que o material seja de facto reciclado. Quais estão certificadas, e para que processos, vê-se na base pública Find a Certified Company.

Antes de encomendar, confirme:

  • Certificado de âmbito de cada empresa da cadeia (fiação, tecelagem ou malha, tinturaria, confecção), válido e com o processo e o produto certos;
  • Percentagem de reciclado do tecido, abaixo ou acima dos 50%, porque decide se a peça pode levar a etiqueta GRS;
  • Certificado de transacção de cada remessa, que vai precisar para sustentar qualquer comunicação;
  • Ficha técnica com a composição, que tem de coincidir com o certificado de transacção.

Uma fábrica com certificado para uma etapa não certifica as outras. Quando nos envia o briefing, colocamos a produção numa fábrica adequada e confirmamos os certificados disponíveis na cadeia.


Como Preparar a Marca para o Passaporte Digital do Produto?

O regulamento europeu de concepção ecológica (ESPR, Regulamento (UE) 2024/1781) está em vigor desde julho de 2024 e os têxteis estão entre os primeiros grupos de produtos, mas os dados exigidos ao vestuário no Passaporte Digital do Produto ainda vão ser fixados num acto delegado. Até lá, não há data de aplicação nem lista de campos obrigatórios para o vestuário. Explicamos o calendário no guia do Digital Product Passport e no artigo sobre o regulamento ESPR.

Sem saber os campos exactos, há quatro passos que já fazem sentido:

  1. Compre a fornecedores certificados e confirme o certificado de âmbito na base pública antes de assinar a encomenda.
  2. Peça o certificado de transacção de cada remessa e arquive-o com a encomenda. É muito mais fácil pedi-lo na altura do que meses depois.
  3. Registe a composição e a origem de cada material na ficha técnica de cada artigo.
  4. Escreva alegações verificáveis, com a percentagem e a norma, e sem palavras genéricas como sustentável ou ecológico.

Desde 27 de setembro de 2026, os Estados-Membros aplicam a Directiva (UE) 2024/825, que proíbe alegações ambientais genéricas sem demonstração e rótulos de sustentabilidade que não assentem num sistema de certificação ou não tenham sido criados por autoridades públicas. A proposta de directiva sobre alegações ecológicas (Green Claims), de 2023, ficou parada em junho de 2025, mas as regras da Directiva 2024/825 já se aplicam.


Perguntas Frequentes

Quais são as fibras recicladas mais usadas na moda?

O poliéster reciclado (rPET), sobretudo de garrafas de bebida, é a mais usada. Seguem-se a poliamida reciclada, com o ECONYL da Aquafil como marca mais conhecida, o algodão reciclado (mecânico e químico), a lã reciclada e fibras celulósicas feitas em parte com resíduos de algodão, como a Circulose ou o TENCEL Lyocell com tecnologia REFIBRA.

O rPET e o ECONYL são a mesma fibra?

Não. O rPET é poliéster reciclado, feito sobretudo a partir de garrafas PET trituradas, fundidas e extrudidas. O ECONYL é poliamida 6 regenerada, feita a partir de resíduos como redes de pesca, alcatifas e desperdício industrial, por um processo químico que volta ao monómero (caprolactama). As duas podem ser certificadas GRS ou RCS, mas têm química, usos e preços diferentes.

Que percentagem de reciclado é precisa para o GRS ou o RCS?

O GRS certifica produtos com pelo menos 20% de conteúdo reciclado e só permite a etiqueta GRS no produto a partir de 50%. O RCS aplica-se a partir de 5%. As duas normas são da Textile Exchange; o GRS acrescenta requisitos sociais, ambientais e químicos para quem processa o material.

Qual é a diferença entre algodão reciclado mecânico e químico?

O mecânico desfibra restos de corte, sobras de tecelagem ou peças usadas e volta a fiar a fibra; como a fibra fica mais curta, costuma ser misturado com algodão virgem ou poliéster. O químico dissolve o algodão em fim de vida numa polpa que serve de matéria-prima a fibras celulósicas, como a Circulose, sem essa limitação de comprimento de fibra.

A Circulose ainda existe depois da falência da Renewcell?

A Renewcell pediu falência em fevereiro de 2024. Em junho de 2024, o fundo sueco Altor comprou os activos, que passaram a operar com o nome Circulose. Antes de planear uma colecção com esta fibra, confirme a disponibilidade e os certificados com o fornecedor do fio ou do tecido.

O poliéster reciclado liberta microplásticos?

Sim. Uma peça em poliéster reciclado liberta microfibras na lavagem tal como uma peça em poliéster virgem. A vantagem do rPET é substituir matéria-prima virgem, não eliminar as microfibras. Comunique-o com honestidade.

Como confirmo que um fornecedor tem GRS ou RCS?

Peça o certificado de âmbito (scope certificate) e confirme-o na base pública Find a Certified Company da Textile Exchange, verificando se cobre o processo e o produto que vai comprar e se está dentro da validade. Para cada remessa, peça o certificado de transacção e confirme-o na ferramenta Authenticate a Transaction.

O ECONYL pode ser reciclado indefinidamente?

A Aquafil afirma que o processo químico permite regenerar a poliamida sem perda de qualidade, porque volta ao monómero. Na prática, depende de as peças em fim de vida serem recolhidas e devolvidas ao processo, e esses sistemas de recolha ainda são pequenos face ao volume produzido.

O que muda com o Passaporte Digital do Produto?

Ainda não se sabe ao pormenor. O regulamento europeu de concepção ecológica (ESPR) está em vigor desde julho de 2024 e os têxteis estão entre os primeiros grupos de produtos, mas os dados exigidos ao vestuário ainda vão ser fixados num acto delegado. Os certificados de transacção GRS ou RCS, com a composição e a origem do reciclado de cada lote, são documentação útil para guardar desde já.


Em Resumo

O rPET, a poliamida regenerada, o algodão reciclado, a lã reciclada e as celulósicas com resíduo de algodão são as fibras recicladas com produção industrial no vestuário. O conteúdo reciclado comprova-se com o GRS (a partir de 20%, etiqueta a partir de 50%) ou com o RCS (a partir de 5%), com certificado de âmbito de cada empresa da cadeia e certificado de transacção por remessa, ambos verificáveis nas bases públicas da Textile Exchange. Os números ambientais publicados vêm dos fabricantes, e devem ser citados como tal. E o Passaporte Digital do Produto para o vestuário ainda depende de um acto delegado; até lá, a melhor preparação é guardar os certificados e escrever apenas o que pode provar.

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Fontes

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